Sombras do Passado
blog#290

José, um homem alto e esguio, na casa dos quarenta, está sentado ao ar livre, a acender um cigarro, apesar de estar ligado aos tubos da quimioterapia.
"Não tenho medo de morrer", diz-me. "Mas tenho medo da dor e do sofrimento."
Enquanto fala, percebo que carrega muito mais do que a dor do presente. Carrega também as feridas de uma infância marcada pela distância e pela falta de ligação — feridas emocionais que nunca chegaram verdadeiramente a sarar.
Há uma certa distância nas suas palavras, como se falar da morte fosse mais fácil do que falar do que sente.
Pergunto-me o que procura ao contar-me tudo isto. Alguém que o escute? Ou estará à espera de uma resposta diferente, talvez de uma resposta que torne o que está a viver um pouco menos assustador?
Talvez não precisasse de uma resposta.
Talvez precisasse apenas de alguém que permanecesse ali, a ouvi-lo.
