Sombras do Passado

13-09-2026

blog#290

José, um homem alto e esguio, na casa dos quarenta, está sentado ao ar livre, a acender um cigarro, apesar de estar ligado aos tubos da quimioterapia.

"Não tenho medo de morrer", diz-me. "Mas tenho medo da dor e do sofrimento."

Enquanto fala, percebo que carrega muito mais do que a dor do presente. Carrega também as feridas de uma infância marcada pela distância e pela falta de ligação — feridas emocionais que nunca chegaram verdadeiramente a sarar.

Há uma certa distância nas suas palavras, como se falar da morte fosse mais fácil do que falar do que sente.

Pergunto-me o que procura ao contar-me tudo isto. Alguém que o escute? Ou estará à espera de uma resposta diferente, talvez de uma resposta que torne o que está a viver um pouco menos assustador?

Talvez não precisasse de uma resposta.

Talvez precisasse apenas de alguém que permanecesse ali, a ouvi-lo.


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